04/09/2017

Queridos Telemóveis



Na passada 6ªFeira foi dia de voltar ao "Queridas Manhãs" para falar, desta vez, de doenças tecnológicas.
Fui muitíssimo bem recebido por uma equipa fantástica, onde para além do profissionalismo se respira boa disposição.

Para explorarem um pouco o tema, partilho convosco os principais conteúdos relacionados com o tema.


Os telemóveis representam, inquestionavelmente, um enorme progresso no que concerne aos dispositivos utilitários para o dia-a-dia. Facilitam o acesso ao conhecimento e multiplicam as possibilidades de trocas, interações e cooperações. Hoje em dia usamos o telemóvel para toda e qualquer necessidade do dia-a-dia (redes sociais, pagar contas, monitorizar saúde e exercício físico, jogos, ler, jornais, ver televisão, outros), sendo que a maioria das pessoas acede à internet através deste dispositivo. Este leque vasto de possibilidades, por si só, não é nocivo para a nossa saúde psicológica. A questão central relaciona-se com o controlo e a consciência do nosso comportamento no uso que fazemos do dispositivo. Se os deixarmos entrar nas nossas vidas sem nos interrogarmos sobre os seus inconvenientes, sem repararmos na sua real utilidade, concedemos a estes dispositivos um poder preocupante nas nossas vidas. Importa recuperarmos a consciência acerca deste comportamento e constatar que o uso excessivo dos telemóveis induz uma hipersolicitação permanente, fonte de stress e cansaço. Compromete, com efeito, o nosso tempo de repouso, de reflexão e de presença no mundo, indispensáveis ao bem-estar e ao bem pensar.

Somos nós que controlamos o telemóvel ou é ele que nos controla a nós? O uso do telemóvel passa a ser nocivo ou prejudicial quando passamos a barreira da utilidade e começamos a comprometer o nosso comportamento social.

O comportamento de dependência do telemóvel é mais frequente do que a maioria das pessoas acha, até porque a maior parte das pessoas que faz um uso excessivo do telemóvel não reconhece nem entende este comportamento como uma adição. Do ponto de vista neuronal, o centro de atenção, controlo e processamento de emoções encerram em si processos semelhantes a qualquer outra adição. (Nota: manuais de classificação de perturbações mentais introduzem a perturbação de uso de internet; países que têm clínicas para tratamento desta perturbação em específico – na China e na Coreia do Sul, sendo classificado como um problema de saúde pública).



Dependência do telemóvel

A relação com o telemóvel equipara-se, por vezes, a uma relação afetiva com uma outra pessoa.

A compra de acessórios para personalizar o telemóvel confirma a afeição por um aparelho que entrou em todas as áreas e atividades da vida quotidiana e que representa independência, liberdade, segurança e estatuto social.



Tipos de Dependência do Telemóvel

- Dependentes para a comunicação (chamadas telefónicas e serviços de mensagens instantâneas)

- Dependentes dos últimos modelos de telemóvel

- Dependentes de Jogos

- Dependentes das Redes Sociais


Desde logo, são notórias algumas mudanças de comportamento quando, por qualquer razão, não é possível o uso deste: tiques nervosos (como levar constantemente a mão ao bolso, olhar com agitação para o relógio, procurar o telemóvel sempre que soa o toque de um em redor), irritabilidade e depressão.

Paralelamente, na dependência do telemóvel, os indivíduos nunca o largam; dão-lhe grande importância; recorrem a ele todo o dia como forma prioritária de comunicação; são acometidos por mal-estar e até ataques de ansiedade, angústia e pânico se o telemóvel não está carregado; usam o telemóvel para exercer controlo sobre as suas relações sentimentais; sentem uma necessidade veemente de contacto permanente com alguém, sendo o telemóvel o intermediário da comunicação; buscam justificações para o que sabem ser um comportamento desajustado, no que concerne ao uso desenfreado do aparelho…

O quadro de dependência do telemóvel, quando levado ao extremo, pode consubstanciar um transtorno designado de Nomofobia.

Nomofobia: do inglês “no mobile phobia” (medo de ficar sem o telemóvel). O foco não está relacionado com o tempo em que a pessoa fica com o telemóvel, mas sim nos prejuízos que o seu uso acarreta para a vida.

Muita gente usa o telemóvel com muita frequência, mas tem controlo sobre o mesmo e sobre a situação. Quando o uso do dispositivo coloca em risco a realização de alguma atividade, quando não se consegue concentrar noutras atividades porque está focado no que está a ocorrer no telemóvel, então a situação já ganha estatuto de problema.

Este transtorno é uma compulsão caracterizada pelo medo irracional de permanecer  isolado e desconectado do mundo virtual. Na abstinência perante a falta do telemóvel, os sintomas são muito semelhantes aos da síndrome de abstinência de drogas como álcool e cigarro.

            Quais são os sintomas de um nomofóbico?

            - Angustia;

- Vazio existencial (a vida parece não ter mais sentido)

- Desespero;

- Stress;

- Irritabilidade;

- Náuseas;

- Taquicardia;

- Suores;

- Tensão muscular;

- Pânico.





Relação com a Depressão e Ansiedade

Do ponto de vista da relação com a saúde mental, vale a pena salientar que a nomofobia está geralmente relacionada com sintomatologia secundária de outros transtornos, principalmente os transtornos de ansiedade, tais como fobia social, síndrome de pânico e transtorno obsessivo compulsivo.

Adicionalmente, é também claro que um quadro de dependência do telemóvel, nas pessoas mais frágeis, favorece comportamentos patológicos e compulsivos, modificando profundamente processos de atenção, de memorização e de aprendizagem e prejudicando a nossa rede real de relações.

Existem estudos que apontam que indivíduos que padecem de uso excessivo de telemóveis e outro tipo de ecrãs quadram com perturbações de ansiedade ou depressão, numa relação de influência bilateral.

Depressão

O comportamento de dependência do telemóvel, sendo entendido como uma perturbação de internalização, diminui a motivação e estimula o isolamento social, funcionando o tempo passado ao telemóvel como um escape a todas as obrigações sociais. Cristaliza o individualismo, fomentando o desinvestimento em relações reais e em alguns casos o cumprimento das tarefas mais básicas do dia-a-dia.

Por outro lado a utilização exacerbada deste tipo de dispositivos, pela expectativa que de disponibilidade que se presume nos contactos que se estabelecem, quando estes não são correspondidos pode instalar uma frustração com espaço para um vazio emocional.

Ansiedade

Existem estudos que concluem que uso abusivo de telemóvel, ao promover o contacto online com outras pessoas, não permitem a resolução do problema, uma vez que funcionaria como uma espécie de escape para aqueles sujeitos que padecem de ansiedade ou fobia social. Isto é, o stress e a ansiedade do face a face e a preocupação com avaliações negativas estaria neutralizado. Aqui, o anonimato a autoapresentação desejada e muitas vezes idealizada pode atenuar a preocupação com a crítica dos outros. Rapidamente conseguimos escapar a situações de embaraço e não estamos sujeitos aos efeitos da interpretação por via de expressões faciais ou emocionais.

Adicionalmente, a presença virtual nas redes sociais que os telemóveis possibilitam, contribuem para um aumento da ansiedade em dinâmicas tão lineares: como a receção ou a leitura de mensagens, a pertença a um grupo de conversa ou não, a falta de coragem para ser adicionado a um determinado grupo, a erros de distorção nas interpretações de mensagens mais subtis ou subjetivas.





Outros Problemas Causados pelo Telemóvel

Sono

O uso do telemóvel durante a noite pode atrapalhar o sono. A luz emitida pelo ecrã do telemóvel afeta o ritmo circadiano do corpo e ativa a produção de hormonas que promovem o estado de alerta. Além disso, se mantivermos o telemóvel ao lado da cama, existe uma grande probabilidade de sermos acordados a meio da noite devido a alertas e vibrações.

Todos devemos evitar o uso do telemóvel durante a noite, para que desfrutemos de um sono profundo e reparador. Importa lembrar que as insónias e os distúrbios do sono são um causa direta para outros problemas de saúde e comprometem outras funções para a atividade do dia a dia (atenção, concentração, rendimento, produtividade).



Stress

Se tiver o hábito de verificar o seu telemóvel a cada minuto, poderá esta ser uma das razões para os níveis de stress que sente habitualmente. Além disso, o zumbido constante, alertas, vibrações e lembretes podem gerar mais compromissos inúteis e conduzir a mais stress.

Adicionalmente, e como já vimos, o uso excessivo do telemóvel pode ser um fator de risco para problemas de saúde mental em jovens e adultos, nomeadamente na instalação de quadros de depressão e ansiedade.



Síndrome da Vibração Fantasma

A relação que mantemos com o telemóvel é bastante íntima e muito contínua.

Esta circunstância pode consolidar o aparecimento da síndrome da vibração fantasma. Consiste em imaginar que o dispositivo está a vibrar constantemente, o que faz com que verifiquemos as nossas notificações com excessiva frequência, comprometendo a outras ações sociais e interpessoais.



Condução

A condução de um automóvel obriga, por si só, a um foco e controlo muito grande. O uso do telemóvel durante a condução de um veículo acarreta um risco muito grande para o próprio e para os restantes veículos que circulam na estrada. O comportamento deve ser consciente também a este nível, não criando subterfúgios para que seja “mais fácil” atender o telefone, ver uma mensagem ou notificação (p.e. suportes para colocar o telemóvel no vidro).



Impacto Social e Familiar

Um dos sinais de que o uso desenfreado do telemóvel deturpa o modo como as pessoas vivem as suas relações está neste mindset de que mostrar é mais importante que viver. Assiste-se quase a uma desaprendizagem de viver e usufruir o momento para se focarem nos embelezamentos superficiais que esses momentos poderão suscitar. Isto é, mostrar passou a ser mais importante do que o viver ou fazer.

É quase como se cada um de nós fosse um artista, que produz conteúdos para serem apreciados e literalmente gostados. Para estas pessoas o valor que é acrescentado às suas vidas passa pelo nº de gostos e partilhas que os seus produtos geram.

Existe uma deturpação do que agrega, ou não, valor à vida e isso é retroalimentado, porque, quanto mais eu mostro, mais os outros querem ver. As pessoas deixam de desfrutar do momento para postar, ficando um vazio, uma falta de sentido, onde os “gostos” e os comentários preenchem esse vazio. Aí, quando vem o vazio de novo, eu posto outra vez. O indivíduo torna-se extremamente dependente da opinião dos outros e a noção de felicidade é instantânea.

Tendencialmente, quem reconhece o estado de dependência no qual o indivíduo se coloca é quem convive com a pessoa. Esta até sabe que usa muito, mas normalmente perde o sentido crítico de que está a exagerar. Por isso, quem partilha a vida com a pessoa percebe melhor e deve procurar ajudar.

Neste sentido, o trabalho para a consciencialização para a prevenção é fundamental, na medida em que o uso do telemóvel é um comportamento socialmente aceite.



Impacto Social

A nossa sociedade está sempre em constantes transformações tecnológicas, sendo imperativo que consigamos realizar uma adaptação positiva, sem excessos ou descompensações. Caso contrário, criam-se oportunidades para desequilíbrios de ordem física, emocional, comportamental e psicossocial. Com o uso dos telemóveis não é diferente, conforme já vimos.

Do ponto de vista da interação social, quando os indivíduos não conseguem estabelecer limites no seu comportamento de usarem o telemóvel, dando ênfase ao virtual, assiste-se a um fenómeno designado de phubbing.



Phubbing: Da junção de Snubbing (esnobar; ser superior) e (Phone); corresponde ao ato de ignorar alguém por estar constantemente a olhar e a consultar o telemóvel.

Este fenómeno instala-se pela perda da capacidade de esperar, pela angústia de não saber do outro. Gera-se uma necessidade de nos controlarmos uns aos outros. Assim como reconhecemos que falar é fácil, desligar é que é difícil.



Impacto Familiar

Considerando que o sistema familiar é à partida um sistema de forte envolvimento, coesão e partilha, um comportamento como aquele que estamos a tratar assume um impacto significativo, na medida em que os efeitos da sua recorrência e persistência levam a um desgaste e deterioração, muitas vezes irreversíveis, do sistema.

Objetivando, o uso excessivo do telemóvel consubstancia alterações ao nível:

- Da rede social da família: aumenta o nº de pessoas com que cada um dos membros da família interage e também na forma como estas relações acontecem, ultrapassando-se todos aqueles que ocupavam até então o habitual espaço no seio das relações interpessoais.

- Das fronteiras entre a família e o exterior: interferência de outros atores nos momentos ou atividades vividas em família, nomeadamente, amigos dos filhos através de apps mensagens, amigos dos pais através de telefonemas, colegas de trabalho através da troca de emails, etc. São cada vez mais raros os momentos em que as famílias estão de facto sozinhas.

- Da exposição do núcleo familiar: A fronteira com o exterior expande-se, entrando mais pessoas, mais informação e mais riscos (para os filhos, para os pais e para o casal). Percebe-se uma redução do controle parental e aumento da partilha de informação sensível (pessoal, económica, etc.). As noções de anonimato e visibilidade acabam por ficar deturpadas.

- Da comunicação dentro da família: Por um lado temos o benefício de adquirirmos um modo de comunicação rápido, acessível e económico, facilitador da gestão do dia-a-dia, promotor de segurança no contacto com os filhos ou aproximados de familiares deslocados. Por outro lado, conduz ao crescimento do evitamento do contacto face a face e um desencontro de expectativas de disponibilidade – a ilusão de que o outro está permanentemente disponível e contactável.

SINAIS DE ALERTA
Se reconhecer em si alguns destes comportamentos…

- Consulta permanentemente as notificações do seu telemóvel

- Inicia conversas / interações sem uma intencionalidade clara, apenas para se manter ativo

- Sente que o seu telemóvel está a tocar / vibrar, e constata que efetivamente não está

- Sente angústia e/ou ansiedade face à expectativa de alguma resposta ou interação

- Valoriza a expressão numéricas das interações (nº de notificações; nº de sms’s; nº de gostos…)

- Valoriza mais a vida virtual do que a real (pessoas significativas ou não)

- Mantém-se com o telemóvel em circunstâncias não tão apropriadas (reuniões, refeições, wc, consulta médica)

- Deixa de se envolver numa atividade real para se focar na presença que pode fazer dela nas suas interações virtuais (Valorizar o mostrar o não o viver)

- Procura sempre ter o telemóvel da última geração

… deve repensar a relação que tem com o seu telemóvel!!
 
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